Competitividade e Crescimento Económico - Parte 1
1. Produtividade e Criação de Valor
A produtividade é o rácio, positivo, entre horas empregues e
o resultado ou produção dessas horas, medido em unidades diferentes de medida.
A produção é convertida da sua unidade base de medida (e.g. kilos, unidades,
utentes), em função do seu preço, que reflete o valor, real ou percecionado, de
um bem ou serviço no mercado. O valor do trabalho é um resultado direto entre o
valor da produção das horas de trabalho empregues, por isso não depende só do
esforço, horas empregues, não depende se quer do resultado ou produção, mas do
valor dessa produção em mercado.
Se produzimos resultados de pouco valor no mercado, que não
são únicos ou especiais, desempenhamos funções de baixo valor acrescentado na
cadeia produtiva. Se não controlamos a cadeia produtiva e de distribuição,
então o resultado das horas empregues, a remuneração, é reduzido,
desproporcional ao esforço de execução, diríamos então que “trabalhamos para
aquecer”.
2. Controlo da Cadeia de Valor
Não controlar o cliente final, a entrega na última milha, a
marca e acesso aos mercados, significa, por outras palavras, estarmos reféns de
quem a gere ou controla, quem detém a marca e a chave do mercado, quem define
preço e escoa produto. Por mais que reivindiquemos, o nosso trabalho é
facilmente substituível, não somos únicos ou especiais, pois se não formos nós,
existirão outros e outras formas ou métodos.
A economia portuguesa é uma economia de serviços de baixo
valor. Não controlamos grandes marcas, patentes, mercados e redes de
distribuição. Não controlamos recursos de grande valor, naturais ou artificiais.
Temos praia e sol, temos paz e segurança, pouco mais. O resultado de cada hora
de trabalho é naturalmente baixo. A produtividade não é baixa, como já li em noticias
e vejo nas estatísticas, a taxa de conversão é que é baixa, como um câmbio, o
valor do que produzimos e por isso o que fazemos é de baixo valor na cadeia
produtiva, e por isso quando convertemos o nosso tempo em dinheiro recebemos
pouco. Parece estranho para muitos, mas os recursos intangíveis, a rede, acesso
a capital, mercados e pessoas, a detenção e propriedade de ideias, aplicações,
marcas e produtos é de longe mais relevante e de maior valor que o trabalho
facilmente substituível, como podemos observar na prática do dia-a-dia, do
nosso trabalho braçal e mental, incluindo computacional, da programação à
confeção.
3. Baixa Remuneração
Assim a margem é baixa, ficamos com um fee ou markup
definido nos livros de preços de transferência de uma grande corporação com
sede no Luxemburgo que poderá atingir 10% do valor da produção, mas normalmente
não ultrapassa os 5%, podendo rondar 3% como taxa de gestão na maior parte dos
casos. Não há, por isso, muito valor acrescentado para tributar e distribuir.
É neste contexto que proliferam as multinacionais de
tecnologia e serviços financeiros que não se deslocam a Portugal para
desenvolver o mercado ou para usufruir do nosso valioso capital humano. Este
capital humano é tão valioso e especial como qualquer um por esse mundo fora.
As empresas vêm, e nós agradecemos os altos salários, mas porque ficamos mais
baratos e porque na economia digital não faz tanta diferença onde estão os
colaboradores. Mas depois cada classe profissional luta de forma frustrada e
desesperada por um pedaço maior de um bolo sempre pequeno. Professores, estivadores,
enfermeiros, motoristas, sindicalistas em todos os setores. Contudo, nenhuma
classe luta assim tanto para aumentar o bolo, não investe, não cria, e assim,
como de costume, onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão. Redistribuir
pouco dá pouco a cada um, ficamos todos um pouco mais pobres e um pouco menos
capazes de sair dessa pobreza. Temos inveja de um pouco de sucesso e logo
nacionalizamos essa riqueza através de contribuições e impostos. Não vejo tanta
vontade de criar, de desenvolver relações, marcas, mercados. Não vejo
investimento e promoção fora de portas, apenas uma procissão de formigas sobre os
restos e migalhas da produção mundial, levando em carreirinho o retorno para a
casa mãe, o Estado.
4. Modelo de Otimização
Durante 9 meses desenhei e desenvolvi um modelo
global de otimização da cadeia de abastecimento de uma multinacional, para que
esta pudesse avaliar e reavaliar a capacidade produtiva nas diferentes regiões
económicas, da Europa à Austrália.
Integrei no modelo pontos de sourcing de
matérias primas, rotas terrestres e marítimas, portos, pontos de produção,
armazenagem e locais de entrega. Mapeie manualmente morada de clientes por todo
o mundo, Egito e Turquia, até Tasmânia passando pelo Quénia. Avaliei custos
laborais, na indústria e na gestão, da produção e da estrutura, variáveis e
fixos. Determinei a produtividade em cada linha e máquina em cada local e cada
formato ou tecnologia. Mapeie diferenças de custos alfandegários entre as
diferentes combinações, na liga árabe, na EU, nas relações unilaterais,
bilaterais, regionais e globais e por fim identiquei também as principais
diferenças fiscais que variam de produto para produto em função das forças e
fraquezas de cada mercado ou pais no acesso a recursos. Depois corri o modelo,
com a definição atual de capacidades, restrições e custos. Validei o modelo, retornei
com as condições atuais os custos operacionais da empresa, conversão e transporte.
Depois simulei novos cenários, retirei restrições de capacidade, dotei unidades
produtivas de tecnologias que não detinham, mapeie novas rotas e simulei uma e
outra vez.
A resposta foi sempre a mesma. Em bens
transacionais ou tangíveis apenas até ao Sul de França consegue Portugal ser
competitivo, isto se não tivermos Espanha na corrida, unicamente contra os
mercados de destino como França e Alemanha. Se Espanha estivesse na corrida
também nos ganhava. Mas mesmo sem a concorrência dos nossos irmãos, França e
Alemanha, com maiores custos e restrições laborais são mais competitivos nos
seus mercados, mesmo com o triplo ou quadruplo do custo na mão de obra. Entrando
a Polónia e Turquia, com custos laborais idênticos e mercados bem mais
interessantes, Portugal fica fora da corrida. E foi por essa altura que alguém
me perguntou, em forma de afirmação, se sabia onde se situava o maior
exportador de botões, esse produto normalizado e sem grande complexidade… estranhamente
ou não, era na Alemanha. Não compensa produzir onde é mais barato se a
matéria-prima e cliente estão no mesmo sítio. Noutra discussão, um diretor e
responsável pelo desenvolvimento de negócios no médio oriente e Índia disse-me
claramente que a primeira variável na tomada de decisão de instalação de
capacidade produtiva é a dimensão do mercado interno, em proximidade, e só
depois, bem longe, a competitividade laboral é relevante na equação, e
posteriormente outros fatores, nomeadamente fiscais.
5. Inércia e Gravidade
Na validação do modelo e construção de
cenários, desafiando a estrutura das coisas identifiquei outras restrições
interessantes, bem conhecidas, mas por vezes esquecidas. Para além da
necessidade de escala, a amortização de investimentos passados causa inércia na
alteração de grandes infraestruturas. Alexandria não produzia os subprodutos
químicos necessários para a produção de polímeros embora sendo uma das maiores
refinarias do mundo porque o mercado interno não tinha escala, por um lado, mas
também por ser um investimento desproporcional num produto não core e pela
existência de investimentos passados em unidades em Roterdão e Antuérpia, onde
aí sim havia procura e escala relevante. Agora, mesmo que haja escala, que surge
com o mercado regional crescente e aumento do poder de compra, não há vontade
de desperdiçar o investimento realizado. Assim, até ser amortizado o
investimento passado é inércia ou até bloqueio capador para a deslocalização de
produção mais complexa. É como uma estrela, o sol, fazendo orbitar todos os
planetas à sua volta, onde nossos somos Plutão.
6. Economia Real
América Latina, América do Norte, Pacífico,
entre Austrália e Nova Zelândia, a resposta é sempre a mesma. De que vale
construir capacidade produtiva num local onde não há escala suficiente na
procura para pagar o investimento num período aceitável? De que vale não ter
impostos a pagar no Dubai durante 25 anos senão há resultados para pagar
impostos? Apenas negócios menos claros, transações estranhas, se deslocam para
um deserto. Não é economia real.
Estou a abordar a economia real, a produção
de matérias-primas e bens em escala. Produção de máquinas e tecnologia, não
falo de prestação de serviços e realização de transações. Falo de
desenvolvimento de produtos de consumo primário e secundário, da produção em
massa de produtos complexos, não só da confeção de produtos básicos. Falo no
crescimento de marcas, lançamento de patentes, da distribuição mundial de valor
acrescentado. Quantas conhecemos assim em Portugal? A produção nacional não é
detida por capital nacional. A maior parte dos resultados não são tributados em
Portugal, Portugal não controlada os recursos, fluxos ou produtos. Somos meros
participantes, capturamos apenas uma pequena e menos relevante fatia do valor.
Se o resultado é de baixo valor, assim também é a remuneração do trabalho, essa
mesma que nos torna atrativos para a deslocalização de empresas de serviços
tecnológicos e financeiros.
7. Mercado Europeu Digital
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