Meio para o Fim
Ficamos presos no horizonte da nossa impotência. Realizamos
pequenos avanços sem controlar o resultado, colocamo-nos na melhor posição
possível, sem assegurar o desfecho.
Vemos TV e ouvimos Rádio. Propaganda transmitida,
comunicados de imprensa, informação dedicada para efeitos de marketing de
ideias de grupos e vontades. A mesma notícia repete-se por todos os canais e
meios, no mesmo formato e com o mesmo texto, ao mesmo tempo, para nada escapar.
Vem sempre de fontes credíveis desde a Lusa à Reuters. Não colocam o nome da
origem da informação, é sempre melhor, apenas citam alguém que cita outra
pessoa, não vamos nós reconhecer as intenções de quem as emite e tecer juízos
de valor sobre as mesmas. Comunicados, estudos, informações, notícias, sem profundidade,
sem evidência, sem contexto, aparecem e repetem-se. O Governo disse isto, o
Ministro disse aquilo. Não sabemos muito bem o que significa, nem quais os
impactos, ainda não foi aprovado, mas foi dito e publicado, como se fosse
verdade. Um especialista e outro presidente de um sindicado, um nomeado por um
grupo específico como o melhor desse grupo específico, ganham credibilidade sem
sustentação, dizem verdades ou não, são credíveis por isso devem ter razão e
fazer-nos pensar no que desejam.
As notícias são propaganda, foram escolhidas, são repetidas,
foram produzidas e editadas. Não são estudos, não foram investigadas, são
fontes citadas. Não há evidência ou contraditório, são lidas como verdades,
mesmo que sejam apenas parte dela, uma pequena parte ou até apenas uma
perspetiva. Publicam notícias que são tempo de antena para os seus emissores.
Empresas, grupos de interesse e políticos, todos ligados, escolhem conteúdo e
formato. Passa em todo o lado, não há perguntas, apenas afirmações. As perguntas
que haja já foram planeadas, pré-partilhadas, não se vá descair o emissor e
dizer algo fora do argumento.
Um dia é o abandono do interior, outro os idosos
abandonados, depois passamos pela pedofilia, pela violência doméstica, uma
catástrofe ali e outra acola, passamos revista ainda pelas desigualdades,
abusos de poder e injustiças sociais, um cheirinho de alterações climáticas,
sem nunca deixar de passar pela saúde, pelas infraestruturas públicas,
estradas, pontes, escolas, hospitais, aquela pediatria e umas filas de espera e
aqueles aviões para os incêndios, aquele que apanhou uns e-mails e divulgou, os
divulgados nem vê-los, uma comissão de inquérito cómica, um processo adiado,
uma manifestação de um grupo que quer mais, depois outro que também quer mais e
outro que mais quer, já que os outros também querem, todas profissões de risco,
desgaste rápido e cruciais em si próprias e individualmente. Um aeroporto que
não se vê, mas foi programado, umas novas carruagens que talvez fosse bom não
ver, também programadas, um passe aqui, uma creche acolá, menos impostos, mas
mais carga fiscal, pois temos de continuar a cumprir os compromissos e acabamos
de aumentar a despesa. Mais umas pensões e isenções, uns subsídios bem
espalhados, uns indicadores pintados, umas promessas vagas e que dão para os
dois lados.
Pois, mas o que conta, o crescimento económico, competitividade, equilíbrio da balança,
redução da dívida pública, a promessa de sucesso e mais oportunidades, isso é que nem ver ou prometer. Uma empresa que
investe em Portugal, a promoção de um município, mais uma distribuição de
riqueza que foi retirada e realocada devidamente. Esta fantochada todos os
dias. Não há visão, não há plano, apenas repetição. Será a força da natureza,
inevitável e irreversível. Ninguém quer ouvir o discurso racional, pensar custa.
É cansativo ouvir algo sério e uma dura realidade.
Que tal um pouco de tensão social, pulverizadas por umas
injustiças cruéis com uma síndrome de conspiração, seguido de promessas
improváveis. É a Reuters que o disse, não foi o gabinete do presidente que
publicou, citou uma fonte da Lusa, não foi o secretário de Estado que o
redigiu, seguiu-se uma festa e a paródia continuou. Sorrisos e fotos. Ninguém
quer saber se aguentamos uma crise, quem for a seguir que aperte o cinto. Não
temos ativos para vender ou mais rendimento disponível para tributar,
arranjamos sempre escravos para trabalhar, nacionalizamos umas empresas
corruptas geridas por nomeados, amigos e ex-governantes, limpamos a casa,
arranjamos um testa de ferro e um bode expiatório. São os de lá de fora e de
cor diferente da nossa. Foi aquela minoria e aquela maioria, não fomos nós.
Sempre foi assim, aceita que dói menos. Vamos aceitar que andamos todos ao
mesmo, se fossemos nós faríamos igual, pior é quando somos nós que estamos por
baixo.
Assim, o que nos arrelia é estar por baixo, não é o mundo ser injusto ou haver
desequilíbrios. Isso são desculpas que arranjamos para nos irritarmos e para
lutarmos por poder, mais um subsídio, um aumento e um contrato mais seguro, uma
carreira automática, um benefício e um desconto, mais um incentivo e uma
isenção e que tal uma pensão. Viajamos para esquecer, lutamos no nosso lugar,
se fossemos nós não seríamos puros, não daríamos do que é nosso, não iriamos
trabalhar por nada, não nos iriamos sacrificar por outros que nada fariam por
nós. Se fossemos nós lixávamo-nos todos e os que viessem a seguir que
arrumassem a bagunça. O que nos lixa é perder, é nascer e começar a perder, é não ter
garantias de ganhar é saber que nos podem tirar, nos podem lixar. Isso é que
nos lixa a cabeça.
Então, arranjamos um grupo, um sindicato, um partido, uma empresa e
fazemos pressão pela verdade, pela justiça, nos meios de comunicação. Servimos
propaganda, mas da boa, daquela que serve os bons, os objetivos puros, aqueles
que são justos para nós. Vamos à TV e também à Rádio. Dizemos o que pensamos,
escrevemos publicações, enchemos as redes sociais de opiniões. Convencemos
amigos, repetimos as nossas ideias. Sem promessas de conseguir mais, mas com a
intenção de ter mais. Mais dinheiro, mais liberdade e mais futuro. Nós fazemos
isso, faríamos isso, como eles nos fazem a nós. É uma luta interminável pelo
nosso futuro, pelo domínio da nossa realidade, pela certeza, pela liberdade e
pela oportunidade.
Defendemos os pobres quando somos pobres, também defendemos
quando somos ricos porque eles são muitos. Defendemos os ricos sem o dizer,
mantemo-los sempre ricos e os pobres sempre pobres. Contamos histórias de
pobres que se tornam ricos, não dos ricos que se tornaram pobres, nem a dura
realidade que os primeiros são minorias da maioria e os segundos minorias da
minoria. São menores, somos indivíduos individualistas e egocêntricos que
procuram assegurar a sua sobrevivência e perpetuidade através dos outros. A
sociedade é um meio de ascensão, não é um fim.
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